A síndrome dos ovários policísticos, mais conhecida como SOP, é uma condição reprodutiva-metabólica que vai muito além da presença de cistos nos ovários. Para iniciar, cistos são pequenas formações líquidas que contém folículos (óvulos) que se acumulam na periferia dos ovários, porém nas pacientes portadoras de SOP não resultam em ovulação efetiva, caracterizando um dos principais aspectos da síndrome, que é a anovulação – causa de infertilidade.

Entretanto, nem toda mulher que apresenta imagens de cistos visualizados na ecografia transvaginal é portadora da Síndrome dos Ovários Policísticos. A SOP envolve aspectos como anovulação, resistência a insulina, infertilidade, e excesso de hormônios androgênicos (ou hormônios masculinos, responsáveis por alterações físicas mais importantes na SOP), irregularidade menstrual, ausência de menstruação, aumento da gordura visceral (aquela barriguinha que nunca some), sobrepeso e obesidade.

O diagnóstico e sobretudo correto tratamento desta condição vai muito além de corrigir consequências desagradáveis como a infertilidade e as alterações físicas decorrentes do excesso de andrógenos – como acne, excesso de pelos principalmente de distribuição masculina, queda de cabelo. A resistência a ação da insulina, hormônio produzido pelo pâncreas que controla o uso de glicemia – apesar de aparentar ser algo inofensivo, pode levar futuramente a condições como sobrepeso e obesidade, Diabetes, doenças cardiovasculares como hipertensão arterial, aumento do colesterol e dos triglicerídeos, além de doenças psíquicas.

Alguns dados:

  • Acomete de 4 a 35% da população feminina
  • Até 85% das pacientes com SOP têm sobrepeso ou obesidade
  • Mulheres magras também tem SOP e de 75% a 83% tem inclusive resistência à insulina

Como se desenvolve a SOP?

O mecanismo desenvolvimento da síndrome dos ovários policísticos é extremamente complexo! Há alterações genéticas que somadas a fatores como uma dieta rica em carboidratos, sedentarismo, alterações sociais e ambientais culminam em um ambiente hiperglicêmico no qual o pâncreas não consegue secretar quantidade suficiente de insulina, levando a resistência à insulina. É gerado então uma inflamação crônica e leve que, a nível de ovários, leva ao aumento do hormônio luteinizante (LH), responsável pela produção de androgênios (como a testosterona, androstenediona e outros hormônios masculinos). Esse excesso de hormônios masculinizantes, por sua vez, inibem um outro hormônio chamado folículo estimulante (FSH), inibindo assim o processo de ovulação.

Características da mulher com SOP

Primeiramente, a Síndrome do Ovários Policísticos é uma condição extremamente variada entre suas pacientes!! A grande maioria das mulheres com SOP apresenta apenas algumas características.

Antigamente muito se falava de um padrão de portadora de SOP: mulheres gordas, com excesso de pêlos faciais e que não conseguiam engravidar.

Porém a Síndrome dos Ovários Policísticos vai muito além disso. Acomete mulheres independente de peso ou nível de gordura corporal, que em sua grande maioria não apresentam qualquer dificuldade para engravidar e que nem sempre sofrem com pelos ou espinhas. Algumas características.podem ser citadas:

  • Irregularidade menstrual: períodos superiores a 45 dias sem menstruar (oligomenorreia) ou maiores que 60 dias (amenorreia), podendo chegar a anos de ausência de sangramento;
  • Menstruação excessiva;
  • Infertilidade;
  • Acne;
  • Hirsutismo, que é o excesso de pelos, em geral grossos e predominantemente de distribuição masculina – acometendo face e pescoço (barba), região da virilha, pernas, costas, etc;
  • Queda de cabelo ou alopecia;
  • Resistência à insulina;
  • Aumento da gordura abdominal;
  • Sobrepeso e/ou obesidade.

Diagnóstico de SOP

Há diversos critérios usados para diagnosticar a síndrome dos ovários policísticos. Em todos eles deve ser considerada a história clínica da paciente, com investigação minuciosa do padrão menstrual, além de avaliação física. O mais usado atualmente é o Critério de Rotterdam, segundo o qual para diagnóstico são necessários 2 dos 3 critérios:

  1. Oligomenorreia e/ou anovulação
  2. Sinais clínicos e/ou bioquímicos de hiperandrogenismo (excesso de hormônios masculinos)
    1. exames laboratoriais mostrando altas doses de androgênios como testosterona e androstenediona
    2. presença de hirsutismo e/ou acne e/ou alopecia/ queda de cabelo
  3. Ovários policísticos caracterizados pelo exame ecográfico com presença de, pelo menos, um dos seguintes achados
    1. 12 ou mais folículos medindo entre 2-9 mm de diâmetro
    2. Volume ovariano aumentado (> 10 cm³), na ausência de folículo dominante ou de cisto de corpo lúteo.

Atualmente também tem sido utilizada uma classificação da Síndrome dos Ovários Policísticos considerando fenótipos, já que há diversas manifestações em cada mulher com SOP:

  • Fenótipo A: hiperandrogenismo + disfunção ovariana + morfologia ovariana policística
  • Fenótipo B: hiperandrogenismo + disfunção ovariana
  • Fenótipo C: hiperandrogenismo + morfologia ovariana policística
  • Fenótipo D: disfunção ovariana + morfologia ovariana policística

Mulheres com fenótipos A e B têm os sintomas mais clássicos de SOP: disfunção menstrual, resistência à insulina, hiperinsulinemia, síndrome metabólica (composto por hipertensão arterial , aumento do volume abdominal/ gordura visceral, diabetes mellitus tipo 2, hipertrigliceridemia e baixos níveis de colesterol HDL). Pacientes com fenótipo C são mulheres que ovulam e assim possuem a SOP ovulatória, não enfrentando problemas de infertilidade.  A SOP não hiperandrogênica, presente no fenótipo D, caracteriza-se por poucas alterações endócrino-metabólicas e presença de ciclos menstruais regulares intercalados com irregulares.

Exames complementares

ultrassonografia pélvica: para investigação do padrão policísticos nos ovários

– exames laboratoriais: glicemia, insulina, hemoglobina glicada, curva glicêmica e insulínica, perfil lipídico, avaliação de função hepática, hormônios tireoidianos (TSH, T4 livre), prolactina, FSH, LH, testosterona total e livre, androstenediona, SHBG

  Bioimpedância

Possíveis Complicações

São inúmeras as complicações associadas à SOP. Podemos citar doenças cardiovasculares, esteatose hepática não-alcoólica, diabetes mellitus II, hipertensão arterial, trombose, câncer de endométrio, transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, transtorno bipolar e compulsão alimentar, além de tantos outros.

Tratamento

O tratamento da mulher com SOP precisa ser personalizado.

O primeiro tratamento para toda e qualquer mulher que tenha a Síndrome dos Ovários Policísticos é Reeducação alimentar e prática regular de atividade física. Como a resistência à insulina é o combustível para o desenvolvimento da SOP, o tratamento deve sempre visar a melhora desse perfil metabólico.

No tocante aos exercícios físicos, devem ser privilegiados exercícios aeróbicos, contudo sem deixar de lado treinos de força. Uma boa sugestão é o hiit (exercícios intervalados de alta intensidade).

Em relação à alimentação, basicamente deve-se privilegiar o consumo de carboidratos de baixo perfil glicêmico ou hipocalórica, evitar o consumo de refinados e industrializados e investir em uma alimentação anti-inflamatória.

Em alguns casos de mulheres com resistência à insulina pode ser necessário lançar mão de hipoglicemiantes. No caso específico da SOP a Metformina é bastante utilizada, com bons resultados na redução da resistência à insulina em pacientes independente de peso. Aquelas mulheres inférteis devido a SOP também se beneficiam muito do uso da Metformina.

Outra alternativa de hipoglicemiante que vem sendo utilizado é o inositol (mioinositol e S-chiro-inositol). Além de melhorar a resistência a insulina, esse suplemento ajuda a regular ciclos menstruais, melhoram a ovulação, além de auxiliar no perfil lipídico.

Ainda sobre a infertilidade, pode ser necessário prescrever indutores de ovulação como o clomifeno e o letrozol naquelas mulheres com desejo gestacional.

Mulheres com queixas ligadas ao hiperandrogenismo como alopecia e excesso de pelos se beneficiam do uso de medicações com efeitos antiandrogênicos, como a espironolactona. Mais recentemente, suplementos como o saw palmeto também são aliados na luta contra pelos indesejados e acne.

Alguns suplementos utilizados como adjuvante no combate a SOP são probióticos, Ômega 3, coenzima Q10, vitamina D, picolinato de cromo, N-acetilcisteína, resveratrol, magnésio, zinco, barnerine, L-carnitina e ácido alfa-lipóico, dentre outros que vêm sendo estudados.

Mas e o anticoncepcional?

ANTICONCEPCIONAL NÃO TRATA SOP!!

Antigamente, simultaneamente ao diagnóstico de SOP era prescrito automaticamente um anticoncepcional combinado (ACOH), geralmente contendo etinilestradiol associado a progestágeno com ação antiandrogênica como a ciproterona e a drospirenona.

Contudo, considerando que o fator mais importante para o desencadeamento e desenvolvimento da Síndrome dos Ovários Policísticos é a Resistência à Insulina, o anticoncepcional não tem qualquer efeito sobre a RI. Aliás, acredita-se que a longo prazo o ACOH pode inclusive piorar o quadro.

Por outro lado, o anticoncepcional, com perfil androgênico, melhoram os sintomas relacionados ao hiperandrogenismo como a acne, o hirsutismo e alopecia.

Com relação ao padrão menstrual e regularização do ciclo, o anticoncepcional na verdade mascara esses sintomas. Quem toma ACOH não menstrua, apenas tem um sangramento por privação hormonal no período da pausa. Por isso muitas mulheres que não usam nenhum outro tratamento fora o anticoncepcional apresentam irregularidade menstrual quando interrompem o uso da medicação.

Portanto, o melhor tratamento considerando pacientes com irregularidade menstrual é combater a resistência à insulina.

Dra. Marcelle Thimoti

Ginecologista e Obstetra, CRM: 21709, RQE: 17852

Ginecologia | Obstetrícia | Parto Humanizado | Síndrome de Ovários Policísticos

“E se a consulta fosse como um bate papo de amigas? Acredito que o momento de cuidar da saude da mulher é uma troca, aliando empatia, carinho e conhecimento técnico.”

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