“Para mudar o mundo, é preciso primeiro mudar a forma do nascer.”
Michel Odent, obstetra frances defensor do parto natural
A mulher é a protagonista do processo de nascimento. Ou assim deveria ser. Com a medicalização e hospitalização do parto, onde um numero cada vez maior de mulheres sendo submetidas a partos cesarianos sem indicação, seja por desejo materno (após se convenceram que a dor do parto natural é um sofrimento) incentivada sobretudo pela conveniência do sistema de saúde, enxergar a mulher como a grande estrela no processo de nascimento – onde apenas ela e o sua cria deveriam importar – se tornou quase uma utopia.
Felizmente, esse modelo de assistência obstétrica vem sendo questionado. O empoderamento feminino é incompatível com a forma como a obstetrícia estava ocorrendo. Assim, dois temas se destacam na busca por uma assistência obstétrica de excelência: a violência obstétrica e a humanização do parto.
Violência obstétrica é um termo extremamente amplo que se refere aos mais diversos tipos de violência praticadas contra mulheres gestantes, seja no período da gestação, durante o parto, pós parto e também nos casos de abortamento.
A Violência obstétrica (VO) foi relatada por 30,3% das mulheres no setor privado versus 45,2% no SUS. De uma simples dificuldade de acesso ao sistema de saúde, passando por impedimento da gestante em escolher sua via de parto (normal ou cesárea) e culminando com agressões físicas e violação do corpo da mulher, todas essas situações são exemplos de VO. Ou seja, estima-se que a quantidade de mulheres vítimas seja muito maior.
A humanização do parto vem como um movimento de resposta a essas situações de violência, defendendo que a assistência obstétrica deve ser voltada ao bem estar físico e emocional da gestante.
Para se reconhecer a violência obstétrica e garantir uma assistência verdadeiramente humanizada ao parto, nós mulheres devemos nos munir de informações. Em seguida um breve resumo para ajuda-las nesse processo de autoconhecimento.
A violência obstétrica
Violência Obstétrica é qualquer intervenção ou procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, gritos e negligência à gestante, parturiente, puérpera ou ao bebê, bem como o desrespeito à sua autonomia, escolhas, integridade física e mental. (VENTURI et al., 2010)
É qualquer ato praticado por qualquer pessoa envolvida no atendimento a grávida – desde o funcionário que faz o primeiro contato na chegada a uma clínica ou hospital, passando por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem. A VO envolve falta de acesso a informação, impedimento, dificuldade de atendimento no sistema de saúde, agressões verbais, físicas, psicológicas e até mesmo sexuais, pratica de procedimentos e intervenções desnecessários, sem consentimento e sem qualquer evidência cientifica. Apesar de muitas vezes deslegitimada, principalmente por aqueles que se beneficiam do sistema atual, a violência obstétrica gera como aumento da morbimortalidade materno e fetal, além de depressão, traumas psicológicos, comprometimento da vida sexual, dentre outros. Há ainda um numero enorme de mulheres que passaram por determinadas situações e que sequer tem consciência de serem vitimas de violência obstétrica.
Individualidades ainda aumentam as chances de sofrer com VO: mulheres não brancas (principalmente as negras), pobres, de diversas identidades sexuais, moradoras de periferia, solteiras, com vários filhos, com filhos de diferentes progenitores, portadoras de necessidades especiais, religiosas, dentre tantas outras.
Dentre as situações mais comuns na violência obstétrica podemos citar:
- Falta de esclarecimento a grávida sobre todo e qualquer processo que ocorre na assistência durante todo o período pré- concepcional, de gestação, parto e pós parto;
- Falta de acesso ao sistema de saúde
- Impedir a parturiente de escolher a sua via de parto
- Comentários ofensivos, xingamentos, humilhações – sobretudo aqueles motivados por cor, identidade sexual, condição socioeconômica, numero de filhos, idade, religião,
- Coibir, inibir ou ameaçar a mulher caso ela grite;
- Não chamar a paciente pelo seu nome. Caso algum apelido ou vocativo, a paciente deve concordar (evitar nomes como “mãezinha”)
- Determinar qual a posição a mulher deve ficar
- Impedir acompanhante da escolha da grávida;
- Uso de indução de parto indiscriminado a fim de acelerar o parto sem que haja indicação por risco materno ou fetal – o famoso “sorinho”, “ocitocina”. Ainda que tenha indicação, é obrigatória a concordância da paciente.
- Tricotomia – que é a depilação dos pelos pubianos
- Lavagem intestinal
- Imobilização de braços/pernas
- Restringir acesso a anestesia/analgesia de parto ou mesmo métodos não farmacológicos para alívio de dor (como banho morno, massagens, etc), quando não há contraindicação;
- Manobra de Kristeler – empurrar a barriga da mulher durante o parto
- Episiotomia, o famoso “pique” – pratica proscrita de corte no períneo, principalmente quando não tem indicação, sem anestesia e sem consentimento da mulher
- Puxos dirigidos – mandar a paciente fazer força no período expulsivo
- Toques desnecessários – todo contato físico com a paciente deve ter consentimento
- Impedir a “hora de ouro” ou Golden hour – a primeira hora de contato físico entre a mae e o filho no pós parto sem motivo aparente.
- Impedir amamentação caso não haja nenhuma contraindicação
- Não respeitar o plano de parto
Há varias outras situações que podem ser identificadas como VO. Se ocorreu contra a vontade da mulher, sem qualquer indicação e sem ser discutido e explicado a paciente, pode ser considerada como um ato violento.
Outra situação de violência obstétrica muito negligenciada é o atendimento de mulheres em processo de abortamento ou óbito fetal. Falta de sensibilidade e acolhimento da mulher que passa por essa situação tão delicada, incluindo frases como “Daqui a pouco engravida de novo”. Há ainda aquelas mulheres que tem atendimento recusado, demorado ou violento sob justificativa de suspeita de aborto provocado, incluindo questionamento e acusação da mulher sobre a causa do aborto, realização de procedimento invasivos sem explicação, consentimento ou anestesia, culpabilização e denúncia da mulher.
A humanização do parto
A assistência respeitosa a grávida é o principal fundamento da humanização do parto. Nesse processo está envolvido a preocupação com boas praticas no cuidado da gestante.
Inicialmente, tem que ser estabelecido um relacionamento respeitoso entre a equipe obstétrica escolhida pela paciente. Garantir a mulher todo o acesso a informação, a possibilidade de esclarecer suas dúvidas, adoção de medidas para garantir que a mulher tenha uma gestação, parto e puerpério saudáveis são a base da humanização.
Os profissionais envolvidos no processo devem estar alinhados com a medicina baseada em evidências, intervindo somente quando necessário, porem sempre com o consentimento da paciente.
O empoderamento do feminino exige que a mulher seja a protagonista daquele momento que é um dos mais importantes da sua vida. Cabe às mulheres buscar informações a fim de que ela tenha plenas condições de realizar escolhas conscientes do que é melhor para ela e seu filho.
O conhecimento liberta!

Dra. Marcelle Thimoti
Ginecologista e Obstetra, CRM: 21709, RQE: 17852
Ginecologia | Obstetrícia | Parto Humanizado | Síndrome de Ovários Policísticos
“E se a consulta fosse como um bate papo de amigas? Acredito que o momento de cuidar da saude da mulher é uma troca, aliando empatia, carinho e conhecimento técnico.”